STF, suspeitas e autodefesa institucional: o uso político da narrativa da perseguição

Quando a crítica ao STF vira pecado
março 7, 2026

STF, suspeitas e autodefesa institucional: o uso político da narrativa da perseguição

STF, suspeitas e autodefesa institucional: o uso político da narrativa da perseguição

Ou: quando a casa cai, sempre aparece alguém gritando “estão perseguindo a decoração”

 Por LLC

 

Minha gente, o enredo é velho. Velho, gasto e com cheiro de mofo institucional.

Funciona assim: enquanto o sujeito posa de paladino da moral, de guardião da democracia, de protetor da República, ele quer holofote, aplauso, editorial simpático e reverência em praça pública. Mas basta aparecer uma conversa atravessada, uma amizade esquisita, uma viagem suspeitíssima, um favor fora da curva, uma decisão com perfume de camaradagem, que o discurso muda na mesma hora. Aí já não tem mais problema nenhum a ser explicado. Não. Aí passa a existir, de repente, uma grande conspiração universal para perseguir os puros, os castos, os quase canonizados do sistema.

É exatamente essa a utilidade da matéria do Correio da Manhã  sobre a suposta infiltração de “moroistas” na PF e na PGR para atingir o STF. A função dela não é esclarecer. A função dela é organizar o álibi.

Porque reparem no truque: em vez de ficar no centro da roda a pergunta realmente constrangedora — “afinal, o que há de concreto nessas suspeitas que estão respingando em ministros?” —, muda-se o disco e sobe o volume de outra música: “olhem a perseguição, olhem os infiltrados, olhem a sabotagem, olhem os inimigos da Corte”. Pronto. O foco sai do fato e vai para a novela. Sai da suspeita e vai para o roteiro. Sai do embaraço e vai para o vitimismo estratégico.

É o famoso: não olhem para a mancha no sofá; discutam quem abriu a cortina.

E sejamos francos: ninguém aqui é bobo de achar que não existem disputas reais dentro da PF, da PGR, do governo, do sistema inteiro. Claro que existem. O problema não é esse. O problema é que, quando a água bate na canela de gente graúda, aparece logo um coral de defensores profissionais dizendo que tudo não passa de “armação”, “campanha”, “ataque à democracia”, “ofensiva contra as instituições”.

Minha senhora, tenha santa paciência.

Uma coisa é haver disputa política real. Outra, bem diferente, é usar essa disputa como desodorante narrativo para tirar o cheiro ruim de suspeitas incômodas.

Porque o pano de fundo é muito claro. O STF acumulou, nos últimos anos, um baita capital simbólico por ter peitado o bolsonarismo mais tresloucado, segurado a tampa da panela e impedido que o país virasse um puxadinho permanente da arruaça institucional. Muito bem. Isso é parte da história. Só que agora o mesmo STF aparece metido num ambiente de fumaça espessa, com suspeitas, relações esquisitas, fatos mal explicados e ministros no centro de polêmicas que não têm nada de edificantes.

Aí o desespero bate.

Por quê? Porque, quando o sujeito constrói a própria autoridade em cima da pose de último bastião da civilização, qualquer arranhão na pintura vira tragédia geopolítica. O problema já não é mais “o que houve?”. O problema vira “não podemos deixar isso enfraquecer a muralha contra o bolsonarismo”. Em português claro: a conveniência política começa a pedir licença para atropelar a limpeza do debate.

E é aí que nasce a cortina de fumaça.

A lógica é mais ou menos essa:

“Olha, pode até ter coisa feia, pode até ter batom na cueca, pode até ter conversa atravessada, mas, pelo amor de Deus, não vamos tratar disso agora com muita ênfase, porque quem lucra com isso é o outro lado.”

Traduzindo para o dialeto do poder:

“não mexe muito nessa sujeira, porque o inimigo pode usar.”

Ora, minha filha, então fechamos a república e abrimos uma paróquia.

Porque, numa democracia de verdade, a pergunta nunca pode ser “quem se beneficia da apuração?”. A pergunta correta é: há algo a apurar ou não há?fato grave ou não há? Há promiscuidade institucional ou não há? Há relação indevida, proximidade imprópria, tráfico de influência, favorecimento, opacidade? É isso que interessa.

Mas não. Em vez de responder, preferem teatralizar.

E o mais engraçado — engraçado de chorar, claro — é que a mesma Corte que adora pregar liberdade de expressão, crítica dura, visibilidade institucional e escrutínio republicano começa a chiar quando a luz bate forte demais no próprio camarote. Para os outros poderes, crítica é vitamina democrática. Para si mesma, crítica começa a virar sabotagem, heresia, ameaça à estabilidade da galáxia.

A Constituição, pelo visto, vale muito — desde que a câmera esteja virada para o outro lado.

E tem mais. Essa narrativa defensiva não nasce só de vaidade. Nasce de medo também. Medo político. Medo eleitoral. Medo de erosão. Porque o governo está desgastando. Lula cai, Flávio Bolsonaro encosta, a corrupção volta ao centro do imaginário popular e todo mundo percebe que, quando o eleitor sente cheiro de podridão, ele não pergunta primeiro quem é inocente filosoficamente. Ele pergunta quem está no poder. E quem está no poder paga a conta primeiro.

Então a turma corre para fabricar o remédio de emergência:

mistura Lava Jato, Moro, infiltração, sabotagem, PF, PGR, vazamento, extrema direita, guerra institucional, tudo no mesmo caldeirão, mexe bem, levanta a fumaça e entrega o prato com nome bonito:
“narrativa de perseguição”.

É culinária política de botequim fino. O feijão queimou, mas servem com alecrim para ver se o freguês esquece.

E eu acho que esse é o ponto mais importante: não se trata, necessariamente, de inventar tudo do zero. O truque é mais refinado. Pega-se um conflito real, um antagonismo real, uma memória real de abusos passados, e usa-se isso para reembalar fatos constrangedores num invólucro mais nobre. Não é negação frontal. É maquiagem institucional. É o velho reboco em parede rachada.

No fundo, a mensagem é:

“Talvez haja coisa feia, mas o feio maior é investigar o feio na hora errada.”

Olha que beleza de moral pública.

No fim das contas, a matéria do Correio da Manhã serve menos para informar e mais para cumprir uma tarefa muito específica: proteger o sentido político da crise. Não apagar o incêndio, porque não dá. Mas pelo menos convencer a plateia de que o problema não é o fogo; o problema é o vizinho que filmou.

Só que isso tem limite. E o limite é simples: quando uma instituição começa a gastar mais energia administrando o significado do escândalo do que esclarecendo o escândalo, ela já entrou na fase do espelho rachado. Continua penteando a própria vaidade, mas a imagem já não fecha.

Por fim:

quando o poder não consegue lavar a roupa suja, ele tenta convencer todo mundo de que o varal está sendo perseguido.

E tem gente que compra.

Mas o sabão continua em falta.

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