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Crimes não violentos, dosimetria das penas e o sacrifício dos réus de baixa periculosidade na estratégia legislativa do 8 de janeiro.
Em 18 de setembro, publiquei neste blog a “Minuta de PL para 8/1: anistia responsável aos não violentos, dentro da lei”. Naquele texto, eu partia de uma pergunta simples, que agora volta com mais força depois da aprovação do PL 2162/23 (Relatório aprovado em Plenário), o “PL da dosimetria”: anistia, afinal, é para quem?
Defendi ali uma saída constitucionalmente responsável para os réus de baixa periculosidade, as famosas “tias do zap” e “velhinhas da Bíblia” que foram arrastadas para Brasília, não planejaram golpe, não financiaram, não comandaram ninguém e não praticaram violência ou grave ameaça. A proposta era clara: anistia cirúrgica para crimes não violentos, mantendo fora desse benefício o núcleo duro do 8 de janeiro e os crimes mais graves contra o Estado Democrático de Direito.
Passados poucos meses, a Câmara dos Deputados fez outra escolha. Em vez de uma anistia responsável aos não violentos, aprovou o PL 2162/23, rebatizado de “PL da dosimetria”, que redesenha penas e regras de execução de forma a aliviar significativamente a situação de Jair Bolsonaro e de seu núcleo duro, enquanto mantém os pequenos réus no lugar mais confortável para o sistema: condenados, com um desconto de pena, mas para trás na fila da justiça e da política.
Este texto reconstrói esse caminho: da estratégia da chamada “anistia light” articulada por Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia, passando pela pressão de Flávio Bolsonaro e pelo arranjo do PL 2162/23, até chegar à pergunta incômoda que o Congresso ainda se recusa a responder, quem merece, de fato, uma anistia: os articuladores do golpe ou aqueles que foram usados como massa de manobra?
Na minha minuta de setembro, a lógica era:
apenas crimes sem violência ou grave ameaça, cometidos no contexto do 8/1, excluídos: tentativa de golpe de Estado (art. 359-M), abolição violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L), organização criminosa, terrorismo, crimes hediondos, financiamento e liderança.
extinção da punibilidade (art. 107, II, CP), sem apagar:
Era, portanto, um modelo pensado para:
Essa é a régua. Agora vamos ver o que a Câmara decidiu fazer.
O texto aprovado na madrugada de 10/12 é o substitutivo de Paulinho da Força ao PL 2162/23, de Marcelo Crivella. E a própria Agência Câmara é muito clara:
“A Câmara aprovou projeto de lei que prevê a redução de penas de pessoas condenadas pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e pela tentativa de golpe de Estado, como o ex-presidente Jair Bolsonaro.”
Os pontos centrais:
Aplica-se apenas a pena mais grave.
E quem são os beneficiados “de luxo”? A própria Câmara lista o chamado “grupo principal”:
Todos já condenados pelo STF a penas que variam de 16 a 24 anos, em regime fechado, em decisões definitivas.
Estima-se que, com a nova lei e a unificação de penas, a condenação de Bolsonaro possa cair de 27 anos para algo como 21 anos, com cerca de 2 anos de regime fechado, e o restante em regimes mais brandos.
Repare num detalhe de SUMA IMPORTÂNCIA:
A alteração é geral, vale para todos, mas foi esculpida sob medida para caber como uma luva no caso dos já condenados por tentativa de golpe, em especial Bolsonaro e o núcleo duro.
Paralelamente a esse jogo legislativo, a Polícia Federal trouxe à luz outro enredo: a estratégia da “anistia light”.
Relatório da PF, com base em mensagens extraídas do celular de Jair Bolsonaro, afirma que:
A “real intenção” de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e do pastor Silas Malafaia era promover uma anistia “light” para “obter uma condição de impunidade” ao ex-presidente.
A imprensa resumiu assim:
Em uma das mensagens mais fortes, Eduardo escreve ao pai:
“Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump.”
E, segundo a PF, em outras passagens ele formula o dilema de forma ainda mais crua:
ou uma “anistia light” para os manifestantes;
ou “brecar o STF” e garantir a impunidade de Bolsonaro, mantendo o apoio dos EUA como moeda de pressão.
Tradução política:
as penas das “tias do zap” eram, para o núcleo, uma variável de negociação.
O objetivo central, confessado nos bastidores, era salvar o pai.
No debate público, “anistia light” passou a designar um projeto que:
As mídias jornalísticas e outros veículos explicaram que Planalto e uma ala do STF aceitariam discutir uma anistia limitada, que aliviasse as penas dos que tiveram participação periférica, sem apagar a responsabilidade do núcleo organizador.
Era, em tese, um caminho mais próximo daquela lógica que eu propus em setembro:
E é exatamente essa linha que Eduardo Bolsonaro rejeita nas mensagens: para ele, anistia que não salve o pai é insuficiente.
Daí a frase brutal:
“Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia ou enviar o pessoal que esteve num protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto.”
Note o “ou”:
não é “e”.
Não é salvar o pai e aliviar a base.
É escolher.
Aqui entra a parte mais delicada: por que uma anistia cirúrgica aos não violentos, constitucionalmente mais segura e politicamente mais justa, morreu na praia?
A a minuta proposta por mim tinha um mérito: ela respeitava o art. 5º, XLIII, da Constituição, que veda anistia a terrorismo, tortura, tráfico e hediondos, e preservava o núcleo duro dos crimes contra o Estado Democrático de Direito fora do alcance do perdão.
Para incluir Bolsonaro e generais numa anistia, o Congresso teria de:
Uma anistia responsável, nos moldes que eu propus, não serviria ao objetivo do clã: ao contrário, cristalizaria em lei a distinção entre “massa de manobra” e “comando golpista”.
Daí a preferência por outra via:
Em vez do rótulo “anistia”,
adotar o discurso técnico da “dosimetria”, menos visível politicamente, mas com efeitos concretos sobre as penas do núcleo duro.
Do lado político, o roteiro ficou ainda mais escancarado com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026.
Em poucos dias, o senador:
Líderes da oposição enxergaram o óbvio:
Lindbergh Farias, líder do PT na Câmara, disse que a fala de Flávio “escancara o método da chantagem”, usando a pré-candidatura como moeda para pressionar o Congresso a aprovar anistia ou algo equivalente.
Enquanto isso, o Centrão e setores da direita foram construindo um “meio termo”:
Ou seja:
a anistia responsável, voltada aos não violentos, não interessava nem ao bolsonarismo, nem ao arranjo de poder.
Ela foi engolida por uma solução mais útil ao topo da pirâmide.
Vamos colocar isso em termos bem concretos, quase como um pequeno exercício socrático.
Se você pudesse sentar numa sala com essas senhoras que viajaram a Brasília, rezaram na frente dos quartéis, foram empurradas para dentro da Esplanada, quebraram símbolos do Estado sem sequer entender a dimensão do que estavam fazendo, e perguntasse:
“Você prefere o quê?
ou
O que você acha que elas escolheriam?
Eu não tenho dúvida da resposta.
Mas não foi isso que lhes perguntaram.
Elas não estavam na mesa de negociação.
Quem estava na mesa eram:
Na anistia responsável (minuta de setembro):
“vocês erraram, mas foram instrumentalizados, não são o cérebro do ataque”.
No PL da dosimetria:
Em outras palavras:
ganharam um desconto no carnê da pena, mas continuam devendo tudo, inclusive o estigma.
Já o núcleo duro — Bolsonaro e os demais do “grupo principal”, ganha algo muito mais valioso:
Para Bolsonaro, falamos de algo como:
Quem lê as mensagens da PF e coloca ao lado o texto aprovado na Câmara percebe a simetria incômoda:
quando a “anistia light” ficou politicamente inviável, criou-se um PL da dosimetria capaz de entregar, por outra via, boa parte do efeito prático desejado pelo clã.
Não é anistia no nome, mas funciona como uma semi-anistia de toga e calculadora para o topo.
Nesse tabuleiro, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro virou o que o próprio senador chamou de “preço”:
Enquanto isso, o Congresso aprovava às pressas, em sessão tumultuada, com imprensa expulsa e deputado retirado à força, o PL que abre a porta para reduzir significativamente a pena do ex-presidente.
Você pode chamar isso de coincidência.
Eu chamo de coreografia política.
A família Bolsonaro usou:
Quem sobrou de fora da equação, de novo, foram os eleitores anônimos que acreditaram em “salvação do Brasil” e “democracia resgatada”.
Apesar desse quadro, nem tudo está encerrado para quem não cometeu crimes graves.
Do ponto de vista jurídico, é importante afirmar com todas as letras:
Traduzindo:
Mesmo com o PL da dosimetria em vigor, continua plenamente possível que o Congresso aprove uma lei de anistia responsável, dirigida apenas aos não violentos, nos moldes da minuta que apresentei em setembro.
Politicamente, isso abre um campo de ação que não deveria ser desprezado:
E aqui cabe uma nova provocação socrática, desta vez dirigida aos parlamentares:
Se você, deputado ou deputada, tivesse de escolher qual gesto melhor pacifica o país, o que seria mais coerente?
– Reduzir, por cálculo técnico, as penas de quem já foi condenado por planejar um golpe de Estado, sem enfrentar a situação dos pequenos réus não violentos;
– ou propor uma anistia responsável, dirigida justamente aos que foram usados como escudo humano do projeto golpista?
Não há nenhum óbice constitucional sério a que um parlamentar apresente, agora, um PL de anistia nos termos que desenhei em 18/09.
O PL da dosimetria não fecha essa porta; ele apenas redesenha a paisagem das penas.
Seria, aliás, um teste interessante:
No fim das contas, a narrativa oficial será a de “pacificação” e “virada de página”.
Já está sendo vendida assim.
Mas vale a pena deixar algumas perguntas no ar — em tom claramente socrático:
As “tias do zap” que talvez tenham alguns meses a menos de regime aberto, ou o ex-presidente com 27 anos de condenação que pode ver o regime fechado se reduzir a algo próximo de 2 anos?
Os pequenos, que poderiam ter saído pela porta da anistia responsável, assumindo o erro, pagando o dano e voltando à vida, ou o núcleo duro, que jamais poderia, sem rasgar a Constituição, ser anistiado de um golpe de Estado?
O PL 2162/23, na forma aprovada, não é um monstro jurídico absoluto.
Há ajustes de dosimetria defensáveis, há discussão sobre progressão que não se limita ao 8/1. É verdade.
Mas o contexto importa.
E, nesse contexto, o que se vê é:
Se há um sacrifício aqui, ele tem endereço certo:
não foi o de Jair Bolsonaro e generais, cujas penas foram recalculadas com precisão cirúrgica;
foi o das pessoas comuns que acreditaram estar lutando por um país melhor, e descobrem agora que, na hora da barganha, sua dor vale menos do que a ficha corrida de quem as liderou.
E, se o Congresso quiser de fato falar em pacificação, o caminho ainda está aberto:
basta alguém ter coragem de protocolar uma anistia responsável aos não violentos, e assumir, às claras, de que lado da história quer estar.