
Deus é amor, mas também é fogo consumidor. A questão é saber se estamos buscando a justiça divina ou utilizando a religião para justificar nossos próprios ressentimentos.
Uma eleição termina, mas a convivência entre os brasileiros continua. Ou, pelo menos, deveria continuar.
No último domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República, derrotando Flávio Bolsonaro no segundo turno. Milhões de brasileiros comemoraram. Outros milhões ficaram frustrados, tristes ou indignados.
É absolutamente compreensível que uma derrota eleitoral provoque sofrimento, especialmente entre aqueles que depositaram suas esperanças, suas convicções e até parte de sua identidade em determinado projeto político.
Muitos acreditaram profundamente na vitória. Oraram, fizeram previsões, expressaram sua fé e anunciaram publicamente a confiança no resultado que esperavam.
Mas o resultado foi diferente.
Não há nada de errado em lamentar uma derrota. Tampouco existe impedimento moral em criticar o presidente eleito, discordar de suas propostas, fiscalizar o governo ou exercer uma oposição firme.
O problema começa quando a frustração se transforma em desejo de vingança contra quem votou diferente.
Nos últimos dias, vieram a público manifestações incentivando empresários a demitir trabalhadores por suas escolhas políticas. Surgiram denúncias de ameaças e discriminação no ambiente de trabalho, levando autoridades a anunciar medidas de proteção e investigação.
É aqui que precisamos fazer uma reflexão, sobretudo entre aqueles que tantas vezes invocaram Deus, pátria e família como fundamentos de suas convicções políticas.
Desde quando retirar o sustento de uma família se tornou uma maneira de defender os valores cristãos?
Essa é uma expressão muito conhecida nos ambientes cristãos.
Quando alguém lembra que Deus é amor, não é incomum ouvir a resposta: “Mas Deus também é fogo consumidor!”
De fato, a Bíblia apresenta Deus como amoroso, justo e também como aquele que exerce o juízo. A expressão sobre o fogo consumidor, encontrada em Deuteronômio 4:24, reaparece no Novo Testamento, em Hebreus 12:29.
Não existe razão para ignorar qualquer dessas dimensões.
Mas a pergunta que proponho é outra: quando invocamos o fogo consumidor, estamos buscando compreender a justiça de Deus ou tentando justificar a nossa própria ira?
Porque existe uma diferença profunda entre reconhecer a justiça divina e imaginar que nossos ressentimentos pessoais representam a vontade de Deus.
Jesus não ensinou que o amor significava aceitar qualquer injustiça. Tampouco autorizou seus seguidores a transformar a fé em instrumento de vingança.
Em Mateus 5:44, no Sermão da Montanha, o ensinamento é amar até mesmo os inimigos.
Observe a profundidade dessa orientação.
Cristo não condicionou o amor à concordância política, religiosa ou moral. Não ensinou que devemos respeitar apenas aqueles que compartilham nossas convicções.
É possível combater uma ideia, desaprovar uma conduta e exigir justiça sem desejar a destruição de quem pensa diferente.
Aliás, quando Jesus declara desejar misericórdia e não sacrifícios, em Mateus 12:7, está retomando uma passagem do profeta Oseias, pertencente ao Antigo Testamento.
Portanto, a misericórdia não é uma invenção tardia nem uma autorização para abandonar a justiça. Ela faz parte de uma tradição moral que Jesus reafirma em seus ensinamentos.
O amor não elimina a justiça. Mas a justiça não pode ser confundida com o prazer de fazer alguém sofrer.
E desejar que um trabalhador seja demitido porque votou em determinado candidato não se transforma em justiça simplesmente porque quem faz esse desejo acredita estar defendendo uma causa religiosa.
Outro argumento que pode surgir é o de que devemos ajudar primeiro os nossos irmãos, aqueles que compartilham nossa fé.
Mas precisamos compreender o sentido desse ensinamento.
Em Gálatas 6:10, o apóstolo Paulo recomenda fazer o bem a todos, especialmente aos que pertencem à família da fé.
A palavra especialmente não significa exclusivamente.
A orientação de cuidar dos irmãos não representa autorização para prejudicar aqueles que possuem outras convicções.
E Jesus apresenta uma reflexão ainda mais profunda na parábola do Bom Samaritano, registrada em Lucas 10:25-37.
Diante da pergunta sobre quem seria o próximo, Jesus apresenta a história de um homem ferido, abandonado à beira do caminho.
Um sacerdote passou. Um levita também. Mas foi um samaritano, pertencente a um grupo marcado por antigas divergências religiosas e sociais, quem prestou socorro.
O ensinamento não foi que devemos ajudar somente aqueles que pertencem ao nosso grupo.
Foi que a misericórdia deve ultrapassar essas fronteiras.
Agora pensemos na realidade brasileira.
Se um trabalhador votou em Lula, deixou de ser nosso próximo? Seus filhos deixaram de merecer alimento? Sua família passou a ser menos digna de respeito?
E se ele sequer compartilhar nossa religião?
Jesus não condicionou a misericórdia à apresentação de uma identidade religiosa ou de um título eleitoral.
Quem precisa de solidariedade não deveria ter de provar que pensa como nós para merecê-la.
Há duas narrativas dos Evangelhos que ajudam a compreender essa questão.
A primeira é o episódio da mulher acusada de adultério, tradicionalmente apresentado em João 8:1-11.
Diante daqueles que pretendiam apedrejá-la, Jesus confrontou seus acusadores com a consciência dos próprios pecados.
Mas é importante observar o episódio por inteiro.
Jesus não transforma o erro em virtude. Ao final, também orienta a mulher a abandonar o pecado.
A misericórdia não aparece como aprovação da conduta, mas como recusa de uma condenação impiedosa, acompanhada de um chamado à mudança.
A segunda narrativa está em Lucas 23:39-43.
Um dos homens crucificados ao lado de Jesus reconhece a própria responsabilidade por seus atos, distingue sua situação da inocência de Cristo e dirige a ele um pedido.
Jesus lhe oferece uma promessa de acolhimento.
Observe que esse homem não era apresentado como exemplo de uma vida irrepreensível. Ainda assim, sua história não terminou apenas na condenação.
Nessas duas narrativas, encontramos uma ideia importante: o reconhecimento do erro e a misericórdia não precisam ser inimigos.
A justiça pode reconhecer a responsabilidade sem negar a possibilidade de arrependimento e transformação.
E aqui chegamos à nossa realidade.
Se Jesus ensinou a amar os inimigos e apresentou exemplos de misericórdia até diante de pessoas acusadas ou condenadas por condutas graves, com que fundamento alguém pretende justificar a perseguição de um cidadão que simplesmente exerceu seu direito de votar?
O eleitor que votou diferente não cometeu uma ofensa contra você. Exerceu uma liberdade que também pertence a você.
Em Mateus 7:1-2, Jesus adverte sobre a maneira como julgamos os outros e sobre a medida que utilizamos nesse julgamento.
Essa passagem não precisa ser interpretada como proibição absoluta de qualquer avaliação moral. O próprio Evangelho contém orientações para reconhecer erros e corrigir comportamentos.
O ensinamento, porém, exige que examinemos nossos critérios e nossa própria conduta.
Que medida estamos utilizando quando desejamos a demissão de alguém por uma preferência política?
É a medida da justiça?
Da misericórdia?
Ou do ressentimento?
Em Tiago 2:13, encontramos outra afirmação significativa: a misericórdia triunfa sobre o juízo.
Isso não significa que não existam responsabilidades ou consequências para os atos humanos.
Significa que a severidade não deve ser confundida com virtude, nem a crueldade com justiça.
Quando alguém deseja que outra pessoa perca o emprego apenas para sentir que sua própria derrota foi compensada, já não está procurando reparar uma injustiça.
Está procurando produzir um sofrimento.
A dor de um não se cura produzindo a dor do outro.
A Constituição brasileira assegura a liberdade de consciência e de convicção política. Seu artigo 5º, inciso VIII, protege contra a privação de direitos por essas convicções, nos termos ali previstos. O artigo 14 consagra o voto direto e secreto.
A legislação também estabelece proteção contra práticas discriminatórias nas relações de trabalho.
A democracia não pertence a um partido. Tampouco a liberdade de voto é concedida somente àqueles que fazem escolhas consideradas corretas por determinado grupo.
Quem votou em Lula não precisa pedir desculpas por exercer um direito constitucional.
Da mesma forma, quem votou em Flávio Bolsonaro não pode ser perseguido por ter feito outra escolha.
E ninguém precisa demonstrar sua religião para ter reconhecidos os direitos que a Constituição lhe assegura.
O Estado é laico, mas seus cidadãos são livres para professar sua fé. Essa liberdade não autoriza, entretanto, transformar convicções religiosas em instrumentos de discriminação política.
Podemos disputar ideias, combater propostas, denunciar irregularidades, exigir investigações e fazer críticas severas.
Podemos questionar decisões e recorrer aos meios legais para esclarecer suspeitas.
Mas não podemos transformar a divergência política em justificativa para negar direitos ou retirar arbitrariamente o sustento de uma família.
A democracia permite adversários.
Não exige que eles se tornem inimigos.
Há um sentimento humano que merece atenção: a frustração.
Quando alguém acredita profundamente na vitória de seu candidato e o resultado é diferente, pode surgir uma mistura de tristeza, indignação e até vergonha diante das provocações dos adversários.
Não podemos ignorar esses sentimentos.
Mas sentir raiva não significa que precisamos obedecer a ela.
É possível continuar defendendo o bolsonarismo sem perseguir petistas. Da mesma forma, é possível apoiar o governo Lula sem humilhar aqueles que perderam a eleição.
E também é possível reconhecer que uma pessoa tomada pela indignação continua sendo muito mais do que suas manifestações naquele momento.
Não precisamos responder à raiva com mais raiva.
Isso não significa tolerar ameaças ou discriminações. Significa enfrentar esses comportamentos sem transformar a pessoa que os pratica em alguém irremediavelmente indigno.
Há uma diferença entre exortar e humilhar.
A exortação procura despertar a consciência. A humilhação frequentemente procura apenas satisfazer o ressentimento de quem a pratica.
E uma sociedade que transforma cada derrota em oportunidade de vingança acaba tornando a convivência cada vez mais difícil.
Aos que se identificam com os valores cristãos e hoje manifestam indignação com o resultado eleitoral, deixo uma reflexão.
Vocês podem continuar defendendo suas convicções, sua fé, sua visão de país e seus candidatos.
Podem discordar do governo eleito e combatê-lo politicamente, com firmeza e dentro da legalidade.
Mas não permitam que a indignação transforme o próximo em alguém indigno de respeito.
A fé cristã não exige que abandonemos nossas posições políticas. Convida, porém, a examinar a maneira como tratamos aqueles que não pensam como nós.
Não é necessário ser petista para defender a dignidade de quem votou em Lula. Também não é necessário ser bolsonarista para reconhecer a dignidade de quem votou em Flávio Bolsonaro.
Em João 13:34-35, Jesus apresenta o amor mútuo como sinal pelo qual seus discípulos seriam reconhecidos.
Não é a preferência partidária que aparece como esse sinal.
É o amor.
E o amor não se manifesta apenas na solidariedade com aqueles de quem gostamos. Seu verdadeiro desafio aparece justamente diante de quem nos contraria.
Talvez este seja o momento de recuperar algo que a polarização política vem enfraquecendo: a capacidade de reconhecer humanidade no adversário.
Podemos perder eleições sem perder nossos princípios.
Podemos vencer eleições sem perder a humildade.
E podemos discordar profundamente sem desejar que o outro sofra.
Deus, pátria e família não deveriam ser palavras utilizadas apenas para identificar um grupo político. Deveriam representar compromissos demonstrados nas atitudes, especialmente quando somos contrariados.
E aos que respondem que Deus não é apenas amor, mas também fogo consumidor, talvez caiba uma última reflexão:
Não somos nós que devemos assumir o lugar do juízo divino.
Não podemos transformar nossos ressentimentos em sentenças e depois atribuir a Deus a responsabilidade por elas.
Se acreditamos que Deus é justo e misericordioso, devemos ao menos examinar se nossas atitudes refletem esses valores.
Porque a justiça não precisa ser cruel para ser firme.
E a misericórdia não precisa abandonar a verdade para ser generosa.
Que a fé não se transforme em instrumento de perseguição. Que a crítica não se transforme em vingança. E que nenhuma derrota eleitoral nos faça esquecer que quem votou diferente continua sendo nosso próximo.
O próximo não deixa de merecer respeito porque pensamos diferente dele.
E ninguém deveria perder o pão porque exerceu livremente o direito de votar.
Referências documentais: Tribunal Superior Eleitoral — Resultado do segundo turno de 2026; Ministério do Trabalho e Emprego — Medidas contra o assédio eleitoral; Constituição Federal, arts. 5º e 14; Lei nº 9.029/1995.
Referências bíblicas: Deuteronômio 4:24; Oseias 6:6; Mateus 5:44; 7:1-2; 12:7; Lucas 10:25-37; 23:39-43; João 7:53–8:11; 13:34-35; Gálatas 6:10; Hebreus 12:29; Tiago 2:13.